terça-feira, 10 de abril de 2018

Os lisboetas são solitários, mas por opção

Há cerca de um ano, numa festa da minha empresa, uma colega minha, como direi isto... embebedou-se. Na verdade, todos nos embebedámos, como acontece sempre nestas festas, e enquanto eu andava a cantar, dançar e a fazer figuras ridículas, vejo essa minha colega a chorar. Vou ter imediatamente com ela e tento perceber o que aconteceu.

A L. tinha chegado à conclusão, devido ao álcool, que estava sozinha no mundo e que não podia voltar a ficar naquele estado porque a probabilidade de a deixarmos sozinha era grande e podia-lhe acontecer alguma coisa e ficar sozinha numa valeta. Por mais que eu a tentasse convencer que o que ela estava a dizer era a maior estupidez, pois eu própria seria incapaz de a deixar sozinha, ela continuou na ladainha até se sentir melhor, se meter dentro do carro e ir para casa.

Ainda hoje a L. fala desse episódio como a melhor realização e o maior susto que já teve enquanto alcoolizada. E eu penso: será que o medo dela se revela em atitudes que ela própria teria com outros? Chego à conclusão que sim. Será que os pensamentos e atitudes da L. enquanto alfacinha de gema se refletem no resto dos alfacinhas?

A semana passada enquanto vinha do pior sítio de sempre para se sair à noite na terrinha (mas estes sítios é que têm sempre histórias para contar), num carro com uma das minhas melhores amigas lembrei-me novamente da L. Talvez ela nunca tenha sabido o que é amizade a sério. Porque eu, a semana passada, naquele carro, tive a certeza que nunca ficaria sozinha, e que os amigos que eu tenho são a sério.

Esta história leva-me ainda a outra, mais curta. Há alguns meses o M., um colega meu de mestrado, dizia-me que tinha a certeza que os amigos verdadeiros não existem.

Afinal que educação levam estes miúdos lisboetas? Que são ensinados a olhar para o seu umbigo e a pôr os pés em cima de outros quando é necessário eu já sabia, mas começo agora a ter noção de que não escapa ninguém, nem as suas pessoas mais próximas. E isto, para quem não é de cá e não pensa assim, é assustador.


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