Sou uma estranha na minha terra. Os meus pais não eram de cá, chegaram pouco antes do nascimento do meu irmão mais velho. Depois dele vieram mais três, inclusive eu. E nós quatro sempre o soubemos: não pertencemos aqui. O que é bom. Assim, não somos de lado nenhum. O meu irmão mais velho está a viver numa ilha. Se é de lá? Não. Mas também não era daqui. A minha irmã mais velha também fugiu daqui assim que pôde, assim como o meu irmão seguinte. É, deixaram comigo - com a miúda da irmã mais nova - a tarefa difícil de deixar os meus pais sozinhos numa casa enorme que um dia já foi cheia de gente. De tempos a tempos a casa volta a encher-se. Com apêndices e risos de crianças. A minha mãe de vez em quando também sai daqui. Talvez tenha chegado à mesma conclusão de nós. Que não somos de cá.
Quando digo que não quero viver aqui, nem arranjar trabalho, muito menos constituir família, nem a vinte, nem trinta, nem cinquenta quilómetros de distância as pessoas não percebem. Nem os meus amigos, ninguém. Ninguém percebe. Acham que eu tenho a mania que sou superior. Ou arrogante. Ou que não me sei reduzir à minha insignificância. Porquê? Porque os pais deles moram nesta santa terra desde pequenos. E os avós também. E os pais dos avós. E os pais dos pais dos avós.
Eu não. Eu não sou de cá. Nem quero ser.